Bactéria comum usa feridas crônicas como refúgio e desafia antibióticos, revela estudo
Pesquisa internacional mostra que o Staphylococcus aureus se adapta ao 'microambiente' das feridas, especialmente em pacientes com diabetes, tornando infecções mais persistentes e difíceis de tratar
Uma bactéria presente no corpo de cerca de um em cada três seres humanos pode se transformar em um dos patógenos mais perigosos da medicina moderna quando encontra o ambiente certo. É o que revela um novo estudo publicado na revista científica Nature Communications, que mostra como o Staphylococcus aureus utiliza feridas crônicas, especialmente as associadas ao diabetes, como verdadeiros laboratórios de adaptação biológica.
Segundo os pesquisadores, a bactéria não depende apenas de toxinas ou resistência a antibióticos para sobreviver. Ela reprograma seu metabolismo, altera a expressão de genes e explora nichos específicos dentro do corpo humano — como a borda de feridas abertas — para persistir por longos períodos, escapar do sistema imunológico e dificultar a cicatrização.
“O Staphylococcus aureus não segue um único roteiro de sobrevivência. Ele se adapta dinamicamente ao tecido, às células e até às doenças do hospedeiro”, afirmam os autores do estudo Subhadip Ghatak e Fabio Muniz De Oliveira, da Universidade de Pittsburgh.
Um inimigo silencioso e comum
O S. aureus vive de forma aparentemente inofensiva na pele e nas vias respiratórias de aproximadamente 33% da população mundial. No entanto, quando encontra condições favoráveis — como feridas abertas, hiperglicemia e inflamação — pode causar infecções graves, sepse e até morte.
Em pacientes com diabetes, o risco é ainda maior. Estudos citados pelos autores indicam que a hiperglicemia pode triplicar a produção de fatores de virulência, agravando infecções cutâneas e retardando a cicatrização.
Feridas que viram fortalezas bacterianas
A pesquisa analisa dados de um estudo experimental que identificou 27 genes essenciais para a sobrevivência da bactéria em diferentes ambientes do corpo humano, como o sangue, o interior das células e órgãos internos. Esses genes estão ligados a processos básicos como produção de energia (ATP), transporte de íons e metabolismo celular.
Em feridas crônicas, a situação é ainda mais complexa. Esses locais reúnem baixo oxigênio, excesso de glicose, inflamação constante e presença de múltiplos microrganismos, criando um cenário ideal para a adaptação do S. aureus.
“As feridas crônicas não são apenas lesões que não cicatrizam. Elas funcionam como nichos ecológicos onde a bactéria testa e aperfeiçoa suas estratégias de sobrevivência”, explicam os cientistas.
Células humanas como esconderijo
Um dos achados mais preocupantes é a capacidade do S. aureus de invadir células essenciais para a cicatrização, como queratinócitos, fibroblastos e até células do sistema imunológico. Dentro dessas células, a bactéria fica parcialmente protegida de antibióticos e da resposta imune.
Essa estratégia pode explicar por que muitas feridas diabéticas permanecem abertas por meses ou anos, mesmo com tratamento adequado.
“A infecção deixa de ser apenas superficial e passa a ocupar o núcleo celular do tecido em regeneração”, alertam os pesquisadores.
Antibióticos no limite
O estudo também destaca que pacientes diabéticos infectados por S. aureus apresentam maior velocidade no desenvolvimento de resistência a antibióticos, em comparação com indivíduos sem diabetes. Em modelos experimentais, a bactéria mostrou-se capaz de evoluir mais rapidamente em ambientes ricos em glicose.
Esse cenário ajuda a explicar por que infecções em feridas crônicas estão entre as mais difíceis de tratar na prática clínica, frequentemente levando a amputações e internações prolongadas.
Mudança de estratégia
Em vez de focar apenas em “fatores de virulência”, o artigo propõe uma mudança de paradigma: atacar os mecanismos universais de sobrevivência da bactéria, como produção de energia e equilíbrio iônico, que são comuns a todos os ambientes onde ela prospera.
“Talvez o caminho não seja apenas matar a bactéria, mas desmontar sua capacidade de adaptação”, defendem os autores.
Com o aumento global do diabetes e o envelhecimento da população, infecções crônicas associadas a feridas tendem a se tornar um problema ainda maior para os sistemas de saúde. No Brasil e no mundo, essas infecções representam custos elevados, longas hospitalizações e perda significativa de qualidade de vida.
A pesquisa reforça a urgência de novas abordagens terapêuticas, mais precisas e adaptadas ao microambiente das feridas.
“Entender como o Staphylococcus aureus se adapta é o primeiro passo para impedir que ele continue vencendo essa batalha invisível”, concluem os pesquisadores
Mais informações: Ghatak, S., Muniz De Oliveira, F. Lições da aptidão específica de nicho de Staphylococcus aureus na borda da ferida. Nat Commun 16 , 11079 (2025). https://doi.org/10.1038/s41467-025-67164-y