Saúde

Bactéria comum usa feridas crônicas como refúgio e desafia antibióticos, revela estudo
Pesquisa internacional mostra que o Staphylococcus aureus se adapta ao 'microambiente' das feridas, especialmente em pacientes com diabetes, tornando infecções mais persistentes e difíceis de tratar
Por Laercio Damasceno - 11/01/2026




Uma bactéria presente no corpo de cerca de um em cada três seres humanos pode se transformar em um dos patógenos mais perigosos da medicina moderna quando encontra o ambiente certo. É o que revela um novo estudo publicado na revista científica Nature Communications, que mostra como o Staphylococcus aureus utiliza feridas crônicas, especialmente as associadas ao diabetes, como verdadeiros laboratórios de adaptação biológica.

Segundo os pesquisadores, a bactéria não depende apenas de toxinas ou resistência a antibióticos para sobreviver. Ela reprograma seu metabolismo, altera a expressão de genes e explora nichos específicos dentro do corpo humano — como a borda de feridas abertas — para persistir por longos períodos, escapar do sistema imunológico e dificultar a cicatrização.

“O Staphylococcus aureus não segue um único roteiro de sobrevivência. Ele se adapta dinamicamente ao tecido, às células e até às doenças do hospedeiro”, afirmam os autores do estudo Subhadip Ghatak e Fabio Muniz De Oliveira, da Universidade de Pittsburgh.

Um inimigo silencioso e comum

O S. aureus vive de forma aparentemente inofensiva na pele e nas vias respiratórias de aproximadamente 33% da população mundial. No entanto, quando encontra condições favoráveis — como feridas abertas, hiperglicemia e inflamação — pode causar infecções graves, sepse e até morte.

Em pacientes com diabetes, o risco é ainda maior. Estudos citados pelos autores indicam que a hiperglicemia pode triplicar a produção de fatores de virulência, agravando infecções cutâneas e retardando a cicatrização.

Feridas que viram fortalezas bacterianas

A pesquisa analisa dados de um estudo experimental que identificou 27 genes essenciais para a sobrevivência da bactéria em diferentes ambientes do corpo humano, como o sangue, o interior das células e órgãos internos. Esses genes estão ligados a processos básicos como produção de energia (ATP), transporte de íons e metabolismo celular.

Em feridas crônicas, a situação é ainda mais complexa. Esses locais reúnem baixo oxigênio, excesso de glicose, inflamação constante e presença de múltiplos microrganismos, criando um cenário ideal para a adaptação do S. aureus.

“As feridas crônicas não são apenas lesões que não cicatrizam. Elas funcionam como nichos ecológicos onde a bactéria testa e aperfeiçoa suas estratégias de sobrevivência”, explicam os cientistas.

Células humanas como esconderijo

Um dos achados mais preocupantes é a capacidade do S. aureus de invadir células essenciais para a cicatrização, como queratinócitos, fibroblastos e até células do sistema imunológico. Dentro dessas células, a bactéria fica parcialmente protegida de antibióticos e da resposta imune.

Essa estratégia pode explicar por que muitas feridas diabéticas permanecem abertas por meses ou anos, mesmo com tratamento adequado.

“A infecção deixa de ser apenas superficial e passa a ocupar o núcleo celular do tecido em regeneração”, alertam os pesquisadores.

Antibióticos no limite

O estudo também destaca que pacientes diabéticos infectados por S. aureus apresentam maior velocidade no desenvolvimento de resistência a antibióticos, em comparação com indivíduos sem diabetes. Em modelos experimentais, a bactéria mostrou-se capaz de evoluir mais rapidamente em ambientes ricos em glicose.

Esse cenário ajuda a explicar por que infecções em feridas crônicas estão entre as mais difíceis de tratar na prática clínica, frequentemente levando a amputações e internações prolongadas.

Mudança de estratégia

Em vez de focar apenas em “fatores de virulência”, o artigo propõe uma mudança de paradigma: atacar os mecanismos universais de sobrevivência da bactéria, como produção de energia e equilíbrio iônico, que são comuns a todos os ambientes onde ela prospera.

“Talvez o caminho não seja apenas matar a bactéria, mas desmontar sua capacidade de adaptação”, defendem os autores.


Com o aumento global do diabetes e o envelhecimento da população, infecções crônicas associadas a feridas tendem a se tornar um problema ainda maior para os sistemas de saúde. No Brasil e no mundo, essas infecções representam custos elevados, longas hospitalizações e perda significativa de qualidade de vida.

A pesquisa reforça a urgência de novas abordagens terapêuticas, mais precisas e adaptadas ao microambiente das feridas.

“Entender como o Staphylococcus aureus se adapta é o primeiro passo para impedir que ele continue vencendo essa batalha invisível”, concluem os pesquisadores


Mais informações: Ghatak, S., Muniz De Oliveira, F. Lições da aptidão específica de nicho de Staphylococcus aureus na borda da ferida. Nat Commun 16 , 11079 (2025). https://doi.org/10.1038/s41467-025-67164-y

 

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